Canção II – Os Simpsons e o Rigolleto. Beethoven e a surdez do juízo.

1.

                A canção simples, o ode, o hino, nos remete imediatamente a manifestações culturais regionais de diversos lugares e épocas.  Mesmo com particularidades que revelam nessas canções sonoridades bem diferentes, o essencial se matem: a melodia simples cola. É assim no repente, é assim na hora (ritmo típicamente judaico) ou nas canções nigerianas que tanto escutamos dos jogadores da Nigéria na Copa da África do Sul. Essa possibilidade foi muito bem apreendida e explorada na música clássica.  Dentre os inúmeros exemplos Verdi e Beethoven destacam-se.

2.

                No episódio A última das mães de chapéu vermelho de Os Simpsons,  Lisa, enquanto se penteia para ir a aula de italiano com seu amigo Milhouse, canta sua própria versão de La Donna è Mobile (Ária da Ópera O Rigolleto de Giuseppe Verdi).  À sua maneira, Lisa está a cantar aquilo que já está sendo dito no original operístico: o enamorar-se. Em 1851, meses antes da estréia da ópera, Verdi fazia muito mistério e guardava a sete chaves as composições que fariam parte de O Rigolleto.  O motivo é muito simples: conta-se que, muito embora La Donna Mobile tenha mostrado-se uma canção desafiadora para tenores (devido às variações técnicas necessárias para sua interpretação), sua a melodia simples e bela foi assoviada por todos os cantos nas ruas de Veneza no dia seguinte a noite de abertura (e aqui em casa bastou uma audição para que meu primo passasse a assoviá-la também). A melodia simples grava-se no espírito como se exigisse uma reação da linguagem.  Resta-nos o cantarolar e o assovio.

3.

                O quarto e último movimento da nona sinfonia de Beethoven traz dentro de si o ode Á Alegria de Schiller. O tema criado pelo “surdinho” para musicar o poema ocupa lugar central no movimento, na sinfonia e, até mesmo, na obra do austríaco. Recoberta por arranjos muito estudados e corais bombásticos habita no interior da composição uma melodia de simples ida e volta das notas de uma escala maior. Basta uma audição;  gravura impressa na alma. Mas a canção vai além.  O tema de À Alegria entra em uma série de profusões crescentes e decrescentes que suspendem a capacidade do ouvinte de exercer juízo – Os processos da linguagem são, a todo o momento, interrompidos deixando uma série de lacunas não preenchidas. Sobra o espírito, em êxtase. Fácil notar quando alguém assiste tal sinfonia de corpo presente pela primeira vez: Tempo depois quando perguntado, recobra as sensações e finalmente, conseguindo fazer sua linguagem e juízo voltar a funcionar como deveriam, sentencia – “gostei”.

Vá lá.

Anúncios
Published in: on 07/07/2010 at 2:17  Deixe um comentário  

The URI to TrackBack this entry is: https://oaforismatico.wordpress.com/2010/07/07/cancao-ii-%e2%80%93-os-simpsons-e-o-rigolleto-beethoven-e-a-surdez-do-juizo/trackback/

RSS feed for comments on this post.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: